No âmbito científico da Sociologia do Desenvolvimento, entendi
reflectir sobre o livro de Steven Yearley – A Causa Verde: Uma
Sociologia das Questões Ecológicas. A escolha do mesmo é pertinente, na
medida em que, a atenção dirigida aos problemas do ambiente e o aumento
de consciencialização em torno destes é claramente um fenómeno social
de grandes proporções.
O autor do livro desempenha uma função essencial – descritiva,
explicativa e exemplificada – de todo o processo de desenvolvimento das
sociedades ao longo da história dando maior ênfase aos efeitos
provocados por este.
Desde os primórdios da Humanidade o homem tem moldado e
desenvolvido o mundo em busca de satisfações e necessidades humanas
pondo em risco o meio Ambiente. Como já diziam os primeiros teóricos,
tais como, Comte, Durkheim, entre outros, o desenvolvimento processa-se
do simples para o complexo. Atrevo-me a dizer que o próprio conceito de
desenvolvimento alude uma noção de harmonia e de progresso, no entanto,
nem tudo é fácil de explicar na medida em que, o conceito em si, traz
consigo desequilíbrios e de uma certa forma um estado de entropia ao
sistema, ou seja, inexistência de homeostase. É uma opinião própria que
adquiri com a leitura do livro. Quero deixar claro, que no decorrer
desta reflexão crítica vou expor, em pé de igualdade, as abordagens
teóricas com maior pertinência para o estudo da causa verde.
Como menciona Steve Yearley, nos finais da década de 80 começou a
prestar-se uma particular atenção aos problemas ligados ao ambiente,
passando os mesmos a serem considerados quase uma “moda” nos países
desenvolvidos. Segundo o autor, a “ causa verde” ganha uma grande
dimensão tal nos países ocidentais desenvolvidos que, neste momento,
não há políticos, industriais ou agências de publicidade que não
abordem a questão do ambiente como uma das suas prioridades da acção,
talvez por uma consciencialização dos problemas ambientais ou até mesmo
por se achar benéfico ser-se rotulado como verde.
O autor oferece uma síntese sobre os mais relevantes problemas
ambientais, dos quais passo a nomear alguns, tais como: o “buraco” da
camada do ozono que tende a aumentar devido à redução de um escudo que
protege a atmosfera terrestre contra os raios ultravioletas (o seu
desaparecimento conduziria a que uma grande quantidade de radiações de
alta energia atingisse a superfície da terra, dando origem a um leque
muito diversificado de consequências). Outro problema com preocupações
relevantes é o aquecimento global ou efeito de estufa causado pelo
desenvolvimento do dióxido de carbono na atmosfera terrestre. Se o
aquecimento global está, de facto, a ter lugar, as suas consequências
podem ser devastadoras. Entre outras coisas, o nível do mar aumentará à
medida que a costa de gelo polar derreter e os oceanos aquecerem e se
expandirem. As cidades mais próximas da costa ou em áreas mais baixas
serão inundadas e tornar-se-ão inabitáveis.
Por sua vez, a destruição das florestas tropicais também
contribui para o aquecimento global, dado que, são estas que incorporam
o carbono e além demais se estas desaparecerem, a água das grandes
chuvadas tende a escapar-se imediatamente, removendo o solo. Sem o
ciclo de vida da floresta, o solo não se renova e, em consequência, a
terra inicialmente tão rica depressa se degrada. Com efeito, está-se a
pôr em causa vítimas biológicas, aves e outros animais confinados à
floresta e as próprias plantas. Todavia a alimentação e a água também
estão ameaçadas com os pesticidas utilizados na produção agrícola.
São preocupantes estes problemas e até questionaria: onde caberá
ou a quem caberá o desenvolvimento sustentável do mundo? A resposta é
pacífica e considero que esta preocupação reflecte-se nos direitos
reconhecidos aos indivíduos, isto é, o respeito universal dos direitos
e liberdades fundamentais de todo o indivíduo é o interesse comum a
toda a humanidade. Reconhece-se que o direito ao ambiente deve ser
considerado um dos direitos fundamentais do homem, beneficiando do
regime especial dos “direitos, liberdades e garantias”. O meio ambiente
é hoje entendido como sendo património comum a todos os membros da
comunidade, que não pertence a uma pessoa individualmente.
A resposta é lógica, mas não muito directa, embora cada vez mais
haja uma maior consciencialização dos problemas ambientais, não
acredito que os países em vias desenvolvimento poderão aceder à
industrialização sem um aumento das respectivas quantidades de emissão
de dióxido de carbono, por exemplo. Sabendo que a luta desenfreada pelo
progresso capitalizada pelas sociedades desenvolvidas levou a uma
gradual degradação do ambiente, colocaria outra questão: Será que o
mesmo desenvolvimento sustentável que referi está nas mãos dos países
em vias de desenvolvimento? Para uma futura resposta vou enfatizar o
caso do abandono da produção de CFC’s (clorofluorcarbunetos), dando o
exemplo de três dos muitos causadores desta descoberta – os
frigoríficos, os desodorizantes e perfumes – os gases utilizados nestes
objectos produzem partículas que reagem em contacto com a camada de
ozono, de tal forma, que a enfraquecem. São produtos universalmente
comercializados, embora países como, China e Índia, o uso do
frigorífico não seja um bem generalizado. No fluir do seu discurso o
autor refere o facto de o futuro estar nas mãos destes países no que
respeita à não utilização deste bem e ao não aumento de CFC’S que
contribui para a retenção de calor na atmosfera terrestre.
Não posso dar por esquecido, um outro problema que Steven
Yearley dá ênfase: os resíduos e as descargas residuais. Todos os
indivíduos produzem resíduos, mas as sociedades industrializadas
fazem-no a uma escala “escabrosa”. Há que encorajar a reciclagem e a
reutilização e tentar minimizar os desperdícios desnecessários. É
concernente falar numa mudança de valores para alcançar um caminho
reversível e assim dizendo, a valores pós-materialistas.
Eufemisticamente, a solução que muitos países desenvolvidos tomam ao
nível do despejo de resíduos industriais em países subdesenvolvidos em
troca de dinheiro, não é politicamente correcta mas é um negócio
precioso principalmente para os países importadores do que para os
países acolhedores dessas matérias, afinal, em vez de um
desenvolvimento racional há um maior risco de problemas ambientais.
Transfere-se o problema de um lugar para outro, mas o problema continua
a existir.
O Surgimento gradual de problemas relacionados com a degradação
do ambiente e os constantes ataques ao meio ambiente levaram à criação
de alguns movimentos e/ou grupos de pressão, de teor não governamental
– como são o caso: A Royal Society for Nature Conservation, A Royal
society for the protection of birds e a celebre GreenPeace reconhecida
pelas suas imaginativas e audaciosas campanhas através da acção directa
– e partidos verdes . Embora existam muitas filosofias verdes, uma
preocupação comum é a tomada de medidas para a protecção do ambiente
mundial, para conservar os seus recursos em vez de os explorar até ao
limite e para proteger as espécies animais que faltam.
É Sugestivo dizer que embora muitos partidos verdes tomem
medidas a nível nacional, esta devem-se transpor também a um patamar
internacional. Como indica o autor: cada vez mais, quer as organizações
ambientalistas, quer os governos nacionais se têm vistos obrigados a
operar num contexto internacional (1991:109), afinal muitos problemas
ambientais são de âmbito internacional. Além do enverdecimento dos
partidos políticos – têm sido levados a aceitar as mais diversas
exigências ambientais devido a bem sucedidas acção de pressão ou em
virtude da concorrência dos outros partidos (1991:111) – há também um
crescente e continuo “enverdecimento” da opinião pública, muitos
indivíduos começam a agir em favor de causas ambientais, talvez estes
sentiram-se ameaçados ou até foram influenciados e manipulados a certa
ordem pela comunicação social e grupos de pressão. Por sua vez, esta
onda verde afecta comerciantes e industriais e também estes enveredam
por esse “enverdecimento”, na medida em que a procura de produtos “
amigos do ambiente” é constante, embora são os consumidores mais ricos
quem têm aderido em maior escala a este consumo, isto porque os
produtos são em grande maioria mais caros. No entanto, constata-se que
há muitas “burlas verdes”, a credibilidade inicialmente transmitida são
por vezes puros enganos.
Uma outra questão claramente importante diz respeito, ao
desenvolvimento capitalista pois este promove a revisão constante da
tecnologia de produção, um processo que envolve o recurso à ciência.
Autores como Bosquet dizem que a “dinâmica” do capitalismo conduz
directamente à catástrofe ecológica na medida em que o processo
evolutivo de crescimento é atractivo e não pode haver capitalismo sem
desperdício. Neste sentido mais restrito, o capitalismo e o
ambientalismo são contraditórios. Resta ficar à espera que o
capitalismo seja ele próprio o grande motor capaz de gerar e
desenvolver padrões de oferta e de procura do que é verde, já que nem
os argumentos ecologistas farão renascer das cinzas a ideia de
planificação de estado socialista.
Por outro lado, para o movimento ambientalista, a ciência pode
ser considerada como um amigo na medida que tenta perspectivar soluções
para esse fenómeno social, no entanto, muitas ameaças ao ambiente têm
quase sempre origem de carácter tecnológico da nossa civilização, sendo
assim a ciência está directamente implicada. Deste modo, não admira que
os activistas verdes se situam a si próprios numa situação ambivalente
em relação à ciência, ora a criticam ora necessitam dela.
A salvação da preservação do ambiente não pertence só à ciência.
Esta deve ser acompanhada de informação e sensibilização dos cidadãos
para as questões ecológicas, já que o homem é o principal destruidor do
enorme potencial que a natureza lhe oferece.
No decorrer desta reflexão crítica tentei demonstrar que no
mundo, ironicamente, existem dois pólos onde se imperam diferentes
desenvolvimentos a vários níveis: países desenvolvidos (países do
“Norte”) e países subdesenvolvidos (países do “ Sul”). A consciência
verde conheceu os seus maiores avanços nas regiões mais desenvolvidas,
o que quer dizer que nas regiões subdesenvolvidas não haja partidos
verdes ou essa dita onda verde, eles e ela existem. Embora o
crescimento do movimento verde tenha sido maior no Norte, muitos
problemas ambientais atingem o seu ponto de máxima gravidade nos países
do Sul. Estes últimos são extremamente dependentes do Norte, além de
conhecerem uma elevada dependência externa destes países. Claramente
são os países do Norte que têm condições económicas é um ponto
relevante, que não deixa de se esconder nas capas do tempo e, ao qual,
o Primeiro Mundo teve o êxito que se conhece através de pilhagem
exercida sobre as suas colónias, ao utilizá-las como fonte de
matérias-primas e de trabalho e como um mercado manipulado de forma a
garantir a compra dos seus produtos. Ao contrário, as nações do
terceiro Mundo, não só eram vitimas dessa exploração, como não tinham
ninguém a quem explorar.
Hoje “arruinados” e dependentes da economia dos países dos países
desenvolvidos, para o seu nobre desenvolvimento oferecem-se como países
de poluição quando a atraem o investimento industrial exterior, uma vez
que a poluição é vista como um preço a pagar pela modernização.
A questão fica cada vez mais complexa. A separação analítica
entre países ricos e países pobres em termos de ambiente não é fácil ou
provavelmente nem sequer é possível. Os motivos que levam as nações do
sul a tomar o caminho do desenvolvimento errado (já seguido pelo norte)
dependem grandemente da natureza política das relações criadas entre os
dois grandes blocos, que vêm já deformadas sob a égide do pretenso
desenvolvimento planificado desde o final da segunda guerra mundial.
Sou da opinião que o problema está precisamente em que o norte
só reduzirá o seu consumo se obrigado pela força, ao mesmo tempo que
pretende impor ao sul aquilo que não consegue ou não quer realizar.
Logo aí acho que o mundo deve de estar de mãos dadas para esta causa! O
futuro é a nossa grande riqueza, porque, como dizia o grande poeta
António Machado, ainda não está escrito: penso efectivamente que
podemos escrever doutra maneira e é possível mudar o rumo.
Neste sentido é evidente que há que travar a imitação dos padrões
de consumo do norte, promovendo a desigualdade, porque o nosso planeta
simplesmente não dispõe de recursos para tal exploração. Só com muitas
dificuldades pode a Terra sustentar os actuais níveis de consumo dos
ricos.
Concluo que, os países industrializados já não podem representar
uma referência para os países do sul, no que respeita a modelos de
desenvolvimento e a tendência actual – que o norte seja surdo a esta
questão, e que continue a forçar o sul a implementar os seus modelos de
desenvolvimento – não atingiremos nunca a tão badalada
sustentabilidade, claramente impossível a médio e longo prazo (e sendo
o tempo uma variável dinâmica, em breve também a curto prazo). Presumo
que um desenvolvimento sustentável só faria sentido se entendido como
um desenvolvimento sem crescimento (crescimento zero), no qual
existiriam melhorias qualitativas mantidas em equilíbrio, dentro das
possibilidades regenerativas dos ecossistemas, sendo assim, a produção
seria substituída por bens até então desvalorizados e centrar-se-ía na
melhoria qualitativa e no bem-estar das populações.
Mas como parece óbvio o crescimento zero é uma ideia herética, e
não se acredita que esteja sequer no horizonte das políticas
desejáveis, já afastando do nosso pensamento as medidas concretas para
atingir esse objectivo. Vive-se num modelo Capitalista e para seguir
esta linha de continuar a insistir no crescimento económico, são
obviamente necessárias medidas de gestão ambiental, destinadas a
organizar um perigoso exercício de equilibrismo, constantemente
desafiando os limites físicos que suportam a vida.
O desenvolvimento sustentável não se destina a sustentar a
natureza, mas o desenvolvimento em si. É uma medida simples que garante
a continuação da exploração industrial desenfreada, o eterno fluxo de
bens e a infinita acumulação de capitais – tudo isto conseguido através
de limites arbitrários impostos à natureza.
Não há, portanto, nada de novo neste conceito, nada que não tenha
sido já proposto e operacionalizado como moeda corrente nas últimas
quatro décadas do desenvolvimento planificado. Apenas os rótulos têm
mudado e aqui remeto que a onda verde incrementada pelos movimentos
verdes, os partidos políticos, os comerciantes, os cidadãos, entre
outros e esta moda de ser-se verde é um bom começo para um futuro
desejado para não comprometer as gerações futuras. As iniciativas de
desenvolvimento sustentável deveriam incluir a participação dos
cidadãos e o chamada empowerment onde as prioridades das pessoas sejam
postas em primeiro lugar, e que se utilizem métodos centrados no
diálogo, na participação e na aprendizagem através da prática.