Sabemos que o capitalismo simplesmente não é o modo mais sensato de
se organizar uma economia, mas que, agora, é o único modo possível de se
organizar uma economia. Sabemos que os dissidentes dessa sabedoria
convencional podem, e deveriam, ser ignorados. Não há mais nem sequer
qualquer necessidade de se perseguirem tais heréticos; eles são, obviamente,
irrelevantes.
Como sabemos isso tudo? Porque é isso que nos dizem, incansavelmente
– geralmente, aqueles que têm mais a ganhar com essa pretensão, sobretudo os
que fazem parte do mundo dos negócios e seus respectivos funcionários e
defensores nas escolas, nas universidades, nos meios de comunicação de massas
e na política convencional. O capitalismo não é uma escolha, mas simplesmente
é, como um estado da natureza. Talvez não como um estado da
natureza, mas como o estado da natureza. Hoje em dia, contestar o
capitalismo é como discutir contra o ar que respiramos. Discutir contra o
capitalismo, dizem‑nos, é simplesmente uma loucura.
Dizem-nos, uma vez após outra, que o capitalismo não é apenas o
sistema que temos, mas o único sistema que poderemos ter. Contudo, para
muitos de nós, há algo que não convence nessa pretensão. Será essa realmente
a única opção? Dizem-nos que nem sequer deveríamos pensar em tais coisas. Mas
não podemos deixar de pensar – é esse realmente o “fim da história”, no
sentido em que essa frase tem sido usada pelos “grandes” pensadores, para
sinalizar a vitória final do capitalismo global? Se esse é o fim da história,
nesse sentido, não podemos deixar de nos perguntar: pode o verdadeiro fim do
planeta estar longe?
Reflectimos, ficamos inquietos, e esses pensamentos não nos convencem
– por um bom motivo. O capitalismo – ou, mais exactamente, o capitalismo
corporativo predatório que define e domina as nossas vidas – será a nossa
morte se não conseguirmos escapar dele. Encontrar a linguagem apropriada para
articular essa realidade é crucial para a política progressista, não em
dogmas ultrapassados que alienam, mas em linguagem simples que encontra
ressonância entre as pessoas. Deveríamos procurar novos modos de explicar aos
colegas de trabalho, nas conversas informais – políticas radicais em menos de
cinco minutos – por que devemos abandonar o capitalismo predatório
corporativo. Se não fizermos isso, muito provavelmente enfrentaremos o fim
dos tempos, e esse fim trará ruptura, e não êxtase ou arrebatamento.
Eis a minha tentativa para uma linguagem sobre este argumento.
O capitalismo é, reconhecidamente, um sistema incrivelmente produtivo
que tem criado uma enchente de mercadorias, como nenhum outro sistema
conhecido no mundo. É também um sistema basicamente (1) desumano, (2)
antidemocrático e (3) insustentável. O capitalismo tem dado a quem está no
Primeiro Mundo um montão de coisas (a maioria delas de valor marginal ou
questionável) em troca das nossas almas, das nossas esperanças relativas às
políticas progressistas e à possibilidade de um futuro decente para os nossos
filhos.
Em poucas palavras, ou mudamos ou morremos – espiritualmente,
politicamente, literalmente.
1. O CAPITALISMO É DESUMANO
Há uma teoria por trás do capitalismo contemporâneo. Dizem-nos que,
porque somos animais gananciosos e egoístas, o sistema económico deve
recompensar o comportamento ganancioso e egoísta, se queremos ter sucesso em
termos económicos.
Somos gananciosos e egoístas? Claro. Pelo menos eu sou, às vezes. Mas
também somos capazes igualmente de compaixão e comportamento desinteressado. Certamente
podemos agir de modo competitivo e agressivo, mas também temos a capacidade
de solidariedade e cooperação. Em síntese, a natureza humana abrange uma gama
muito ampla de comportamentos. As nossas acções estão certamente enraizadas
na nossa natureza, mas tudo o que sabemos sobre essa natureza é que ela é
amplamente variável. Nas situações em que a compaixão e a solidariedade são a
norma, tendemos a agir dessa forma. Nas situações onde a competitividade e a
agressão são recompensadas, a maioria das pessoas tende a demonstrar esse
tipo de comportamento.
Por que devemos escolher um sistema económico que mina os aspectos
mais decentes da nossa natureza e fortalece os mais desumanos? Porque, dizem‑nos,
é assim que as pessoas são. Que evidência temos disso? Vejam como as pessoas
se comportam, dizem‑nos. Onde quer que olhemos, vemos ganância e
perseguição dos interesses próprios. Então, a prova de que esses aspectos
gananciosos e egoístas da nossa natureza são dominantes é que, quando
forçados a um sistema que recompensa o comportamento ganancioso e egoista, as
pessoas, com frequência, agem desse modo. Ora, isso não parece um círculo
vicioso?
2. O CAPITALISMO É ANTIDEMOCRÁTICO
Esta é fácil. O capitalismo é um sistema de concentração de riqueza.
Concentrando-se a riqueza numa sociedade, concentra-se o poder. Existe algum
exemplo histórico do contrário?
Para todas as armadilhas da democracia formal nos Estados Unidos,
todos compreendem que os ricos ditam as directrizes básicas das políticas
públicas que são aceitáveis para a vasta maioria dos representantes
governamentais eleitos. As pessoas podem resistir e resistem e,
ocasionalmente, um político une‑se à luta, mas tal resistência exige
um esforço extraordinário. Aqueles que resistem conquistam vitórias, algumas
delas inspiradoras, mas até à data a riqueza concentrada continua a dominar.
É esse o modo de se fazer funcionar uma democracia?
Se compreendemos a democracia como um sistema que dá às pessoas
comuns um modo significativo de participar na formação das políticas
públicas, ao invés de conferir apenas um papel de endosso às decisões tomadas
pelos poderosos, então é claro que capitalismo e democracia são mutuamente
exclusivos.
Vamos falar concretamente. No nosso sistema, acreditamos que as
eleições regulares, com a regra de uma pessoa/um voto, juntamente com as
protecções da liberdade de expressão e de associação, garantem a igualdade
política. Quando vou às urnas, tenho um voto. Quando o Bill Gates vai às
urnas, ele tem um voto. O Bill e eu podemos ambos falar livremente e
associarmo‑nos aos demais para propósitos políticos. Portanto, como
cidadãos iguais na nossa bela democracia, Bill e eu temos oportunidades
iguais de exercermos os nossos poderes políticos. Certo?
3. O CAPITALISMO É INSUSTENTÁVEL
Esta é ainda mais fácil. O capitalismo é um sistema baseado na ideia
de crescimento ilimitado. Na última vez que verifiquei, este é um planeta
finito. Há só duas maneiras de sairmos disso. Talvez tenhamos a esperança de
descobrir um outro planeta em breve. Ou talvez, como precisamos de imaginar
modos de lidar com essas limitações físicas, inventaremos tecnologias cada
vez mais complexas para transcendermos esses limites.
Mas ambas as posturas são igualmente ilusórias. As ilusões podem trazer
consolos temporários, mas não resolvem os problemas. Na realidade, elas
tendem a criar mais problemas, e esses problemas parecem estar a amontoar‑se.
É claro que o capitalismo não é o único sistema insustentável que os
humanos conceberam, mas é o sistema mais obviamente insustentável, e é aquele
em que estamos entalados. É aquele que nos dizem ser inevitável e natural,
como o ar.
O CONTO DE DOIS ACRÓNIMOS: TGIF E TINA
A famosa resposta da ex-primeira ministra britânica Margaret Thatcher
a uma pergunta sobre os desafios do capitalismo foi TINA — There Is No
Alternative [Não Existe Nenhuma Alternativa]. Se não existem alternativas,
qualquer pessoa que questione o capitalismo é louca.
Outro acrónimo, mais comum, revelador da vida sob o capitalismo corporativo
predatório é: TGIF — Thank God It’s Friday [Graças a Deus é Sexta-Feira]. É
uma frase que comunica a triste realidade para muitos dos trabalhadores dessa
economia – os trabalhos que fazemos não são recompensadores, não são
gratificantes e, basicamente, não valem a pena serem feitos. Trabalhamos para
sobreviver. Então, à sexta-feira, saímos e embebedamo‑nos para
esquecermos essa realidade, esperando encontrar alguma coisa durante o fim‑de‑semana
que torne possível, na segunda-feira, conforme as palavras de um compositor,
«levantarmo‑nos e recomeçarmos tudo de novo».
É bom lembrar que um sistema económico não produz apenas mercadorias;
produz pessoas também. A nossa experiência de trabalho molda‑nos. A
nossa experiência de consumir essas mercadorias molda‑nos.
Crescentemente, somos uma nação de pessoas infelizes que consomem milhas de
corredores de mercadorias baratas, esperando placar a dor do trabalho
frustrante. É essa pessoa que queremos ser?
Dizem-nos “Não Existe Nenhuma Alternativa” num mundo onde “Graças a
Deus é Sexta-Feira”. Isso não parece um pouco estranho? Será mesmo que não
existe alternativa a um mundo desses? Claro que há. Qualquer coisa que seja
produto das escolhas humanas pode ser escolhido diferentemente. Não
precisamos detalhar um novo sistema com todas as suas especificidades para
percebermos que sempre existem alternativas. Podemos encorajar as
instituições existentes que fornecem um sítio de resistência (como os
sindicatos), enquanto experimentamos novas formas (como as cooperativas
locais). Mas o primeiro passo é chamarmos o sistema por aquilo que ele é, sem
garantias do que está por vir.
NO ÂMBITO DOMÉSTICO E INTERNACIONAL
No Primeiro Mundo, lutamos com essa alienação e medo. Frequentemente,
não gostamos dos valores do mundo que nos cerca; com frequência, não gostamos
das pessoas em que nos tornamos; muitas vezes temos medo do que está por vir.
Mas no Primeiro Mundo, a maioria das pessoas come regularmente. E isso não
acontece no mundo todo. Concentremo-nos não só nas condições que enfrentamos
dentro do sistema corporativo predatório, vivendo no país mais rico em toda a
história do mundo, mas coloquemos isso num contexto global.
Deixem-me voltar a um dado estatístico que referi no primeiro Last
Sunday: metade da população do mundo vive com menos de 2 dólares por dia. São
mais de 3 mil milhões de pessoas.
Eis outro dado estatístico que li recentemente: pouco mais de metade
da população da África sub‑sahariana vive com menos de 1 dólar por
dia. São mais de 300 milhões de pessoas.
Que tal mais um dado estatístico? Cerca de 500 crianças em África
morrem de doenças associadas à pobreza, e a maioria dessas mortes poderia ser
evitada com simples remédios ou redes tratadas com insecticidas. São 500
crianças – não por ano, não por mês, não por semana. Não são 500 crianças por
dia. As doenças decorrentes da pobreza reclamam as vidas de 500 crianças por
hora, em África.
Enquanto tentamos manter a nossa humanidade, estatísticas como essa
podem deixar‑nos loucos. Mas não venham com ideias loucas sobre mudar
este sistema. Lembrem-se da TINA: não existe nenhuma alternativa ao
capitalismo corporativo predatório.
TGILS: THANK GOD IT’S LAST SUNDAY [GRAÇAS A DEUS É O ÚLTIMO DOMINGO]
Reunimo‑nos no Last Sunday justamente para sermos loucos
juntos. Encontramo‑nos para dar voz a coisas que sabemos e sentimos,
mesmo quando a cultura dominante nos diz que acreditar e sentir essas coisas
é loucura. Talvez todos aqui sejamos um pouco loucos. Então, certifiquemo-nos
de estarmos a ser realistas. É importante ser realista.
Uma das respostas mais comuns que ouço quando critico o capitalismo
é: “Bem, talvez tudo isso seja verdade, mas precisamos ser realistas e fazer
o que é possível”. Por essa lógica, ser realista é aceitar um sistema que é
desumano, antidemocrático e insustentável. Para ser realista, dizem-nos,
devemos capitular perante um sistema que rouba as nossas almas, nos escraviza
a um poder concentrado, e um dia destruirá o planeta.
Mas rejeitar e resistir ao capitalismo corporativo predatório não é
loucura. É uma postura eminentemente sadia. Manter a nossa própria humanidade
não é loucura. Defender a democracia não é loucura. E lutar por um futuro
sustentável não é loucura.
O que é verdadeiramente loucura é crer na trapaça de que um sistema
desumano, antidemocrático e insustentável – um sistema que deixa metade dos
seres humanos do mundo na mais profunda miséria – seja tudo o que possa
existir, tudo o que possa ser, tudo o que sempre será.
Se isso for verdade, então em breve não sobrará nada para ninguém.
Não acredito que seja realista aceitar tal destino. Se isso é ser
realista, então direi que estou louco a qualquer dia da semana, a cada
Domingo do mês.
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